Quinta-feira

"So I can give, give, give him every bit of my soul"

Saindo faíscas-fogos-de-artifício quando eu encosto nele, o mundo comemorando. Explodindo. Tudo. Eu, por dentro, daqui de trás, encostando na sombra dele, no que sobrar dele pra mim, no que ele deixar que eu veja, no que ele quiser que eu descubra, porque eu toda nua, já.

Terça-feira

Na dobra da saudade: eu. Queria ter dois braços depois dos braços. E depois mais braços. Mas eu não tenho nem mãos - é no vão entre elas que eu estou. Eu, me construindo de buracos. Me apertando entre o que não dá mais para sentir e o que eu ainda sei que alcanço. Me esticando. Eu, nesses braços que acabam.
Eu reclamo sempre com Joana. Que a vida sufoca e que faz doer.

Hoje é livre e é aberto e é um lago claro e é um parque inteiro. E Joana está encostadinha em mim para dizer que também tem isso de ser bom. Às vezes.

Quinta-feira

De uma menina com uma flor. Ou: Hoje é dia de escrever uma coisa bonita para quem se gosta.

É entre um hiato e outro. De verdade. Eu não estou sentada na beira da água, eu não estou vendo a sua mão longe de pertinho, eu não estou caminhando para trás. Eu estou, sim. Mas é só porque eu agora piso com força pra alargar essa fenda chamada hoje, para prender o instante entre o meu pé e o cimento nem que seja esmagando. É só esse instante esmagado o que eu posso guardar, e ele, esfarelado e inútil, morto, morto, morto, esse cadáver de instante chamado memória é melhor do que instante nenhum. É por ele que eu sobrevivo. Entre um hiato e outro.
Eu vou dizer assim: que eu to num momento. Mas você vai entender perfeitamente. Que momento nada. Que é disso que eu sou feita. Que eu só sou intermitente.
Porque sempre era isso o que me fazia ficar mole. Que antes de eu terminar a frase você já sabia. Já sabia. Você soube desde sempre. Você sabe até hoje. Eu dizia séria, eu dizia gaguejando, eu fingia, eu fazia que ia. E você olhava e me devolvia: é isso. E eu também sabia.

Quantos sacos dá pra encher com essa estranheza de, de repente, encostar no não-vazio, no buraco-que-nunca-foi, repentinamente visível, preenchido com aquilo que apita e anseia? Eu vou te dizer, passado, você não morre. Você é isso grosso e quente que se anula, se anula - e sempre esteve. É tão difícil. Mudar, mudar estruturalmente, mudar na raiz roxa das coisas, e ver um desde-sempre encravado, sujo, rugoso num braço que você nem lembrava que tinha.

Passou quanto tempo? Eu sei que faz exatamente cinco anos e dez meses, eu sei quantas horas faz, eu sei porque pesa e empurra, mas quanto tempo faz? Uns quarenta mil anos. Irreconciliáveis. Eu sei que isso agora é um calo cicatrizado forçadamente, é uma falta de linguagem, é um dorso de... é uma falta de linguagem. É uma gagueira eterna.

Quarta-feira

Você não acorda e pensa: "hoje eu vou perder alguém". Hoje eu não acordei e pensei "vou perder alguém". Você nunca está preparado, mas às vezes está menos ainda.

Terça-feira

Aí você vem rolando ladeira abaixo, abaixo, abaixo. E aí que quanto mais ladeira, mais ladeira. Porque é essa a ordem natural das coisas, ladeirar o ladeirador. E blá blá blá.
Mas é que quando você chega no chão que não chega nunca, nem é mais gente, é uma bola de chiclete mastigado e tufo de cabelo, é uma bola de vômito de bêbado e chuva que enlameou, é uma bola enorme de todo o lixo que você traz para dentro. Porque uma ladeira é isso, a bola de neve não-fofa. É. Uma bola de neve, só que ao contrário.

Quinta-feira

O fundo falso das coisas, sempre há ainda o que cavar. Eu queria repetir isso três vezes, e nove, e por aí vai, como ladainha, numa forma burra de tentar não esquecer o óbvio.

*Eu queria MUITO escrever mais aqui, mas já não há, sabe como?

Quarta-feira

Assim, né. O de sempre. As pessoas são IMBECIS (invariavelmente - é, é incrível mesmo) etc. e tal. Morram todas etc. e tal. A minha mandíbula está me matando desde 2005. É assim, em uns é nos ombros, em outros é nas costas, na cabeça, nas unhas. Em mim é na mordedura, olha só que metafórico.

Mas aí. O dia vale a pena. É que o clichê às vezes encosta na verdade. A vida inteira vale a pena, sabe, mesmo que no segundo seguinte você volte ao nunca-fez-sentido, é porque se perde, mesmo, mas cada vez que acontece, enquanto acontece, sabe-se que vale tudo. E às vezes nem é nada, você que tá num dia sentimentalóide. Mas o quentinho é o mesmo. Eu já não aguento mais há uns cinco anos. Cinco bilhões de. Mas aí é que tá. Aprende-se os meandros. Os contornos. Não que eu já não soubesse, porque eu não aguento mais há vinte e três longos anos. Mas o deserto sempre consegue se alargar, e já é tão imenso, meu deus. Eu já to aqui chorando e nem consegui dizer o que é que faz o dia valer a pena. Mas é claro que você já sabe. Meu monotema etc. e tal. Assistam.

Quinta-feira

Monotemando.

Então. Eu tinha uns 16 anos quando eu vi The dreamers. E, nossa. Aquilo mudou a minha vida. Nível-manoel-de-barros de mudar a vida. Aí eu ficava tentando significar. E vi outros do Bertolucci. Nada me impressionou. Ok, deve ser o Michael Pitt. Aí vi outros dele. Zero. Então deixei pra lá e achei que era o The dreamers que era uma coisa, mesmo. I mean, itself. Aí eu fiz 22 e vi Taxi Driver. Eu acho que só esses dois filmes, mesmo. Na minha vida toda. Porque você vê Dancer in the dark, que é A porrada, mas você consegue dormir e levar a vida. Você vê, sei lá, Casa vazia, e faz "oooh", mas no fim é só um filme. Mas esses dois, não. Aí eu fui atrás, né, porque eu tenho um leve traço de obsessão na minha personalidade. Aí eu vi Raging bull, Cara. Que felicidade. Era o Scorsese, right? Mas é claro que eu preciso ver a filmografia INTEIRA.

Terça-feira

Das cenas que todo mundo deveria rever.

http://www.youtube.com/watch?v=ordo5FwRm0c&feature=related

Eu acho ótimos os comentários. !. Dá vontade de chacoalhar, não dá não? O cristão que põe "guts", "go Travis". Não é cena de charme. Não é cena de conquista. Ninguém viu o filme inteiro???
Eu amo essa cena, mas eu amo o filme todo, então to sem credibilidade. É o constrangimento. É o desajuste. É ele birutadíssimo. E a cena seguinte? Priceless! Eu gosto muito dos delays dele no filme. E ele tem delays no filme quase todo. Mas nessas duas cenas o FODA é o não-delay. Ele salta. FFW total. Totalmente surtado, e ela nem percebe. Ela acha que é charme. Que nem a galera que comenta no youtube.
Eu sempre revejo a cena do não-sexo do Raging Bull. Agora to revendo compulsivamente essas do não-delay. Estou em negação.

Para Jonathan III. Ou: Tem vezes que a gente chora escrevendo cartas de amor.

Eu não sei há quanto tempo, mas foi desde aquele azul estranho, desde aquele abraço infinito, foi ali, ali, um nó eterno já nascido, eu nem sei, mas a gente já sabia, naquele saber que não é esse, então é que era saber de verdade, a gente só respirava e já era bom, deixa eu te dizer, ah, que coisa mais bonita.

Sábado

T. D.

So para continuar. Com o meu monotema. Eu tenho um problema sério com filmes. Com ficção. Mas com filmes. Aí que eu revi Taxi Driver, sei lá, 12 vezes. E eu sempre fico meio mal. Eu não sei lidar com ficção. E eu faço Letras. (!). Eu não sei lidar com certas músicas, também. Com livros eu acho que sei melhor. Eu acho que e pelo aparato teórico - o que, se for, mesmo, é uma tristeza sem fim, perceba -, mas pode ser só pelo tipo, mesmo. De relação.
Mas filme - The Dreamers kind of film - me deixa assim sempre. O filme continua, sabe como? Deixa eu ver. Sweet and Lowdown. Continua. Dancer in the Dark. Continua. Mesmo Amelie, com aquela coisa leve. Não é leve. Continua.
Bom. Aí eu fico desesperadamente querendo que todo mundo veja. "A cara do De Niro!!!". Para poder ouvir de alguém o que eu nao consigo dizer. Depois de ver 12, 15 vezes.
Eu só sei começar: "Sabe em Raging Bull, naquela cena dos dois antes da luta, ele mandando nela?". E depois eu nao sei mais. Frustrante, um pouco.

Segunda-feira

E a fissura-distância, meique irreparável, se abrindo, se alargando, d o l o r o s a m e n t e, como o buraco no dentro, gravidez ao contrário - já disse isso, quatrocentos anos atrás, e é a mesma coisa, porque não passa, não passa, não passa.
É um tempo e é um lugar. Que nunca mais.

Sexta-feira

Ela de novo. A víbora - aquela. A víbora. Sempre falo de Joana, e falo quase tirando ela de contexto, mas hoje-aqui é do livro mesmo que eu falo. A víbora é até nome de capítulo. Eu lembro quando li, e achei tão certo. Também eu a víbora. Hoje.