Eu vou dizer assim: que eu to num
momento. Mas você vai entender perfeitamente. Que
momento nada. Que é disso que eu sou feita. Que eu só sou intermitente.
Porque sempre era isso o que me fazia ficar mole. Que antes de eu terminar a frase você já sabia. Já sabia. Você soube desde sempre. Você sabe até hoje. Eu dizia séria, eu dizia gaguejando, eu fingia, eu fazia que ia. E você olhava e me devolvia: é isso. E eu também sabia.
Quantos sacos dá pra encher com essa estranheza de, de repente, encostar no não-vazio, no buraco-que-nunca-foi, repentinamente visível, preenchido com aquilo que apita e anseia? Eu vou te dizer, passado, você não morre. Você é isso grosso e quente que se anula, se anula - e sempre esteve. É tão difícil. Mudar, mudar estruturalmente, mudar na raiz roxa das coisas, e ver um desde-sempre encravado, sujo, rugoso num braço que você nem lembrava que tinha.
Passou quanto tempo? Eu sei que faz exatamente cinco anos e dez meses, eu sei quantas horas faz, eu sei porque pesa e empurra, mas quanto tempo faz? Uns quarenta mil anos. Irreconciliáveis. Eu sei que isso agora é um calo cicatrizado forçadamente, é uma falta de linguagem, é um dorso de... é uma falta de linguagem. É uma gagueira eterna.